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FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

WHAT WOULD HAPPEN IF WE KISS

 

 

 
{#emotions_dlg.barf} Céus, demorei quatro dias a escrever este texto. Eu queria relatar aquele simples ato de 1995, mas, sou tão lírica e detenho uma veia de escritora tão acentuada que acabou nisto. Todavia, estou extremmente orgulhosa! Acho que me excedi e superei na descrição de sentimentos, sensações e descrições. Sinto-me realizada {#emotions_dlg.blink}

 

 

 

Lá venho eu com as minhas condescendentíssimas palavras falar-te.

 

Sinto, muitas das vezes, que ando em círculos infindáveis, numa espécie de espiral, como se tratasse de um círculo vicioso; falo-te de tanta coisa, mas, raramente, consigo pronunciar-me acerca de algo objetivo.

 

Penso na sólida presença que sempre sustiveste na minha existência e quero relatar-te fatos, ainda que insignificantes, falar-te de “ nós “, ainda que tu não desejes tal pronome associado a esta história. Raramente me pronuncio no plural quando tento relatar algo acerca daquilo que vivi. Raramente emprego verbos de conotação sentimental direta, ou se o emprego faço-o em modo teatral, para que aos olhos de nenhum leitor tal afirmação pareça credível; que estupidez não achas?

 

Porém, hoje escrevo-te como se tu estivesses diante de mim e eu estivesse a contemplar-te olhos nos olhos e, numa perfeita cumplicidade, eu me encontrasse abstraída do poder abissal de desejo que ainda me consome, e, pudesse falar-te de igual para igual, sem denunciar a tensão do meu corpo, a retração dos meus músculos e a perturbação do meu espírito.

 

Recordaste do dia em que deixaste os teus dedos marcados na minha pele, seguraste a minha cintura, e num movimento ágil, pegaste no meu cabelo, deixando as cavidades da minha clavícula a descoberto, enquanto eu permanecia aturdida e silenciosamente, à mercê das tuas mãos e, num ato algo inédito da tua parte, colocaste um colar de missangas em redor do meu pescoço?

 

Havia passado uma noite lamentável com visões distorcidas de imagens inteligíveis (tivera um dos meus típicos pesadelos onde tudo parece extraído de uma pintura de Dali). Ao amanhecer chorara. Com dezasseis anos de idade, a inquietude da vida remoçava-me a alma e fazia-me sofrer de uma obsessão compulsiva que colocava em causa todos os “ se “ e “ senãos “ de uma existência. Era uma rapariga esquecida no tempo, a espera do seu passaporte para a felicidade.

 

Nesse dia, demorara menos de dez minutos a chegar ao átrio da escola. O cenário não mudara em nada; a chuva bafejara-nos de novo com a sua malograda recaída. Leça parecia estar entregue ao flagelo da cortina do nevoeiro cerrado que pintava cada uma das suas esquinas com o mais sombrio dos cinzentos e condenada a humidade persistente e insistente que cobria o ar de uma corrente de ar fresco que nos obrigava sempre a usar agasalhos in extremis. Ainda assim, jovens de pele bronzeada e cabelos louros ou castanho arruivados, a fazer lembrar o Verão que já findara, passeavam-se pelos corredores, rindo jovialmente, e, arrastando-se, langorosamente, até a sala de aulas, numa conversa fluída e ciciada.

 

Assim que contornei o pavilhão, foi fácil localizar-te. Sentia-me a ficar cada vez mais cambaleante e indisposta à medida que te via aproximar de mim. De repente, o espaçoso e amplo pavilhão tornara-se num lugar exíguo, onde a minha respiração cessara de expirar e o oxigênio ficara enclausurado nos pulmões. Tossi em convulsão para que o oxigênio voltasse a bombear-me os pulmões e a concentração de dióxido de carbono no sangue fluísse; céus, porque seria tão difícil a simples contemplação da tua pessoa,Tiago?

 

Quando a campainha soou inspirei de alívio. Pude olhar-te de relance e ver que envergavas uma camisola com decote em V em pura lã caxemira de padrão axadrezado em tons beges e pastel e uns jeans slim, de cintura baixa. Fitaste-me e eu mantive o meu olhar baixo, fixado nos apontamentos de Inglês que a Clara me trouxera a fim de eu os copiar. O teu olhar permaneceu cravado em mim, como se a qualquer momento, fosses avançar uns passos, inclinar-te sobre mim e falar comigo; contudo não o fizeste!

 

Passei o resto da manhã na ânsia e expetativa de voltar a ver-te, encaminhando-me, ora para os edifícios de aulas, ora para o polivalente. Nutria uma vaga esperança de puder encontra-te sozinho, sem aquele caleidoscópio e amalgama de amigos, que trazias sempre em teu redor. Como poderia eu ter um minuto a sós contigo, Tiago? Era completamente impossível. E, todavia, agora que soltávamos risinhos de embaraço na presença um do outro, eu tinha a certeza que poder-te-ia segredar o meu amor, sem ter de o proferir em voz alta e diante de toda a gente.

 

Volvida toda a manhã, sem que tu me voltasses a olhar, regressei a casa cabisbaixa e com a mais melancólica das expressões estampadas no rosto. O meu quarto era o meu refúgio mais que sagrado, o único lar que verdadeiramente eu possuía e conhecia, o único lugar onde eu podia lançar o meu olhar vazio contra o branco das paredes sem que ninguém me instigasse com uma série de perguntas. Ninguém entendia o precipício onde eu me lançara; creio que toda a gente já se apercebera que eu só não sentia vertigens da vida a teu lado, que eu só sorria a teu lado, que o meu raciocínio só se desenvolvia a teu lado, que eu só conseguia transgredir o abismo a teu lado e, todavia, o quão assustadora era aquela dependência para uma rapariga impúbere, de seios ainda em fase de desenvolvimento, corpo em transmutação e psique em plena metamorfose.

 

Tu assustavas-me, Tiago, e o que eu sentia por ti melindrava-me até ao meu último fio de cabelo: era surrealista, sobrenatural, contranatura. O que era aquilo afinal? Talvez fosse amor, sim, talvez fosse amor! Não acreditas ser possível amar-se alguém aos dezasseis anos de idade? No entanto, eu amei-te…

 

O início de tarde chegou e foi melhor, contudo, o nevoeiro cerrado não nos largara, mas parara de chover, embora as nuvens fossem baixas, carregadas, densas e opacas, a desenhar um espectro de tristeza sobre Leça.

 

Almocei em silêncio com toda a gente especada a contemplar-me, como já era hábito usual no seio familiar. Ao terminar a minha refeição, levantei-me da mesa e tratei de arrumar a bagunça da hora alimentícia e cumpri, religiosamente, as minhas tarefas a fim de evitar conflitos com a Ana, esposa do meu pai. Tu não me saias do pensamento. Os minutos passavam, vagarosamente, naquela tarde de Outono de 1995. Estava inquieta, desassossegada. Peguei no “ Quo Vadis “ e tentei centrar a minha atenção no segundo fascículo do livro mas a mente vagueava desordenadamente para ti. Não havia sol, nem o teu corpo moreno, deitado, nas areias quentes da nossa praia. Agora a nossa praia estava vazia e a luz que invadia Leça já não era a mesma e o mar que agora esbatia contra a barra também já não era o mesmo, só uma coisa permanecia imutável: eu não conseguir deixar de pensar em ti.

 

A chuva regressou fraca a meio da tarde. A minha impaciência aumentou vertiginosamente. Precisava sair daquela casa. Espairecer as ideias. Sentia um nó no estômago. Tinha a cabeça a andar as voltas desde que os nossos olhares quase se haviam cruzado. Eu sabia que, desta vez, fora eu a baixar a cabeça, a fugir de ti, a deixar que os meus cabelos tombassem para a frente numa tentativa vã de me isolar do teu olhar evasivo sobre mim. Olhei-me ao espelho. Decididamente, tinha que espairecer as ideias, ainda que o tempo assim não o permitisse. Sentia algo a chamar-me. Desconhecia o porquê, todavia, era um chamamento forte e gutural.

 

Contra todas as condições climatéricas, enfiei-me num vestido preto, em forma de envelope, estilo evasé, de mangas curtas e malha jersey. Nunca o usara devido ao seu decote proeminente. Olhei-me uma vez mais ao espelho. Completei a minha vestimenta com um casaco comprido em tons bordeaux de malha jersey também. Em inícios de Outono, numa tarde cinzenta e chuvosa como aquela, não havia roupa mais desapropriada e despropositada para ir arejar as ideias e o meu pai pareceu reparar em tal.

 

 - Vanessa! – Gritou o meu pai quando me viu a subir as escadas num passo célere.

 

Voltei a descer as escadas e respondi, contrafeita, ao seu chamamento.

 

 - Olá. Diz… - respondi sisuda e apreensivamente.

 

 - Está a chover e um frio de cortar lá fora! – replicou entredentes.

 

«Jura? Olha que nem havia reparado.» pensei para comigo própria e os meus botões.

 

 - Tens aulas a seguir ao almoço? Onde raio vais vestida assim, toda coquete? – perguntou enquanto bebia o seu segundo whisky da tarde, antes de regressar ao trabalho.

 

 - A lado algum especial – resmunguei- Talvez passe pela biblioteca para requisitar uns livros do Gil Vicente. Estamos a estudar o “ Auto da Barca do Inferno “. O meu pai franziu o sobrolho e pareceu surpreender-se com a minha saída inesperada.

 

 - E não pode ficar para depois, essa tua ida a biblioteca? Já sabes que não gosto que andes por aí sem qualquer propósito viável e, ainda mais, com um tempo destes.

 

Caímos num daqueles nossos silêncios infindáveis até que declarei, por fim, com a voz firme e incisiva.

 

 - Pai, eu sei que não gostas. Mas preciso de sair. Estou a sufocar. E a vestimenta coquete foi a primeira coisa que me veio a mão, nada mais…

Retrocedi e dei uns passos na direção do meu quarto.

 

 - Vou mudar para algo mais confortável e quente. Tchau. Não me devo demorar muito. Antes das 18:00 estou em casa.

 

O meu pai intersectou-me o discurso rápido e autoconfiante.

 

 - Vanessa, não é tão-somente a mim que me deves satisfações, mas a Ana também – e tentando ser mais agradável e complacente acrescentou – As seis da tarde em casa. E muda-me essa roupa que, por mais elogioso que tente ser relativamente a ela, não te quero ver a pavonear por aí nesse vestido.

 

Lancei um suspiro para o ar e anui, afirmativamente, contrafeita.

 

Despi o vestido e enfiei-me nuns jeans casuais e juntei-lhes uma sweat com capuz cinzenta de algodão. Pelo menos era algo bem mais aconchegante e prático e dava-me um look urbano. Sai direta para a rua, sem rumo ou destino. Rapidamente o meu cabelo ficou num estado lastimável devido a humidade que se fazia sentir no ar. A chuva voltara a cessar mas a neblina cinzenta persistia. Levei o walkman comigo e pus a tocar uma cassete que tirara a pressa da mesinha-de-cabeceira; algo da Mariah Carey, se não me engano, Daydream, talvez… Enfiei os auscultadores nos ouvidos, deixei que a música absorvesse o meu subconsciente e dragasse as imagens que eu tentava, dissipar de ti, a todo o custo.

 

A caminho da biblioteca a chuva começou a cair impiedosamente. Coloquei o capuz na cabeça numa tentativa inglória de me resguardar. Os meus olhos pareciam procurar, desesperadamente, um local para eu me abrigar. Dirigi-me até a Capela do Corpo Santo, onde verifiquei, com algum alívio, que se encontrava desimpedida. Sentei-me numa das suas vigias de pedra e recostei-me a uma das suas colunas ancestrais, escutando Mariah Carey. Os meus olhos permaneceram, cuidadosamente concentrados e fechados, alheados de tudo em seu redor. Aquele era o meu momento de paz que eu tanto procurara ao longo de todo o dia. Não sabia o que me trouxera até ali mas – naquele instante – tudo me parecia perfeito!

 

Por uns instantes, entreabri os olhos, para rabiscar indolentemente um esboço de toda aquela paisagem no meu caderno de rascunhos. Ao fazê-lo ergui o olhar, algo atónita, arranquei os auscultadores abruptamente dos ouvidos e atirei-os para dentro da mochila. O walkman continuou a rodar a cassete em silêncio e eu quase me estatelei no chão, de tanto embaraço. Os nossos olhares mesclaram-se e eu desviei o meu com algum constrangimento.

 

 - Desculpa, Tiago, não sabia que estavas aí – retorqui – vim dar uma volta mas a chuva fez-me refém – tentei explicar-me atrapalhadamente.

 

 - Eu só estava de passagem – disseste-me num tom de voz aveludado, com um sorriso tão constrangido quanto o meu, a desenhar-se no teu rosto.

 

 - Ah…

 

 - Mas – prosseguiste – parece que, tal como tu, também fiquei refém do mau tempo.

 

Ruborizaste a fazer tal comentário e o teu sorriso esbateu-se no rosto, por instantes. Porventura, acabaras de te aperceber que estávamos os dois sozinhos e confinados a um lugar exíguo, donde se podia contemplar o halo de chuva a cair sobre Leça inteira e o vento a assobiar ruidosamente nas nossas costas, e nós os dois sozinhos, aturdidos, naquele local sem saber que palavras proferir, que gestos manejar…

 

Sentaste-te tão distante em relação a mim quanto a capela o permitia. Ficamos ambos recostados as colunas de pedra a ver a chuva a cair, cada qual no seu canto. Os pensamentos galopavam velozmente na minha mente e atropelavam-se, atabalhoadamente. Tinhas o cabelo molhado ao ponto de gotejar sobre a tua camisola de caxemira. O teu rosto parecia distante. Tinha a sensação que a tua mente estava a tentar estabelecer uma ponte de ligação comigo com o único intuito de estabelecermos um mero diálogo de ocasião.

 

 - Então? – exclamaste após um silêncio ensurdecedor que pareceu durar horas – O teu namoro com o André não deu certo.

 

Revirei os olhos numa expressão pouco amigável. Tudo o que tinhas para me dizer era algo convencional. O meu coração pulsava a mil a hora por ti, o sangue gelara-se-me nas veias. Eu tinha de falar. Dizer-te algo. Contudo, para cúmulo da situação, abordaras assuntos que em nada me interessavam.

 

Suspirei, e voltei-me lentamente para ti, contrafeita e de má vontade. Estava tão familiarizada com o tom da tua voz, o teu cheiro, a tua presença. Era um cocktail irresistível que me inebriava os sentidos. Não adiantava estar a esforçar-me, estupidamente, para me alhear do facto de te encontrares ali ao meu lado, sob a queda de uma chuva imparável; o cenário todo era demasiado idílico e romântico, compreendes? Tu tinhas uma expressão indecifrável de cautela e apreensão estampada no rosto. Não conseguia adivinhar-te os pensamentos, Tiago. Se desejavas fugir e lançar-te na intempérie que nos assolava, ou se desejavas ficar. Por momentos, os nossos olhares cruzaram-se e ambos expressavam curiosidade. Lançamos um sorriso enviesado um ao outro. Levantaste-te e aproximaste-te com um passo firme, nunca desviando os teus olhos dos meus. O meu rosto deve ter-se contorcido de pânico ao ver-te aproximar. A sensação de frio que me aflorava o ventre era tão agradável e excitante quanto perturbadora.

 

- Estás a tremer, Vanessa! - disparaste docilmente.

 

 - Não te preocupes. Eu estou bem, a sério.

 

Ambos não possuíamos casacos e devíamos estar gelados. De repente, lembrei-me do vestido que – inicialmente – pensara em usar e do brilharete que ele teria feito naquela ocasião, a teu lado.

 

 - Deixei o casaco em casa – constatei – mas tu deverias ir andando, Tiago, estás completamente encharcado. Moras a dois passos daqui. Se continuares enfiado nessas roupas molhadas, vais acabar por apanhar um resfriado ou ficar doente.

 

 - Não me queres por perto? – exclamaste estupefacto.

 

 - O quê? – respondi rabugenta – Não é nada disso, Tiago – prossegui – Simplesmente, acho que ficamos meio estupidificados na presença um do outro, os teus olhos ficam inteligíveis, não sei o que esperar de ti e, pior de tudo, não sei como me comportar perante ti.

 

Baixei o olhar envergonhada, pelo teor de tamanha confissão. Lembro-me dos teus olhos castanhos aveludados terem tomado uma tonalidade mais agreste, transmutando-os, subitamente, em verde topázio.

 

 - É muito difícil para mim estabelecer qualquer tipo de conversação contigo – confessei num murmúrio – Não quero ser maçadora ou interferir na tua vida - Ao dizer-te isto fui invadida por uma estranha sensação de alívio e prazer como se me tivessem tirado um peso de cima dos ombros – Mas… sinto constantemente que o sou ; que aos teus olhos sou uma melga insuportável – observei.

 

Permaneceste em silêncio durante um momento incomensurável. Incidiste o teu olhar sobre o meu, um tanto ao quanto estarrecido. Provavelmente, seria informação a mais para assimilares, vinda de uma jovem imatura de dezasseis anos de idade. Abanaste a cabeça de forma indulgente, sorriste e os teus olhos pousaram-se, uma vez mais sobre os meus, denunciando málica, nenhuma mácula e um esgar travesso.

 

 - Esse é o teu problema, Vanessa – franziste o sobrolho – Por vezes, tens atitudes descabidas; ora me evitas, ora avanças sobre mim que nem uma caçadora. Tudo em ti é seriedade. Eu próprio não sei como falar ou lidar contigo.

 

Fixaste o olhar no vazio, sem conseguir prosseguir mais.

 

 - Achas-me arrogante, então… antipática…

 

 - Eu não disse isso; vês? Eu não consigo desenredar as expressões do teu rosto porque tu levas tudo demasiado à risca e a sério. Devias ter uma atitude mais descontraída em relação a tudo – proferiste num ato de compaixão para comigo – Esforças-te ao máximo percebes? E, por vezes, não é preciso nada disso. Basta seres tu própria… e com um sorriso no rosto, de preferência. Não leves tudo tão a sério, Vanessa! Irá prejudicar-te a longo prazo.

 

Baixei o olhar, subjugada pelo teu sermão moralista.

 

O meu sorriso desvaneceu-se. Percebera, subitamente, que fizera algo de errado. Que os meus humores eram demasiado transparentes e percetíveis. Que te assustava e afugentava de mim. Que o problema era eu! A minha cabeça rodopiava com a rápida e súbita mudança de rumo que a conversa tomara. Tudo o que eu mais desejava era estar a sós contigo, sentada, aconchegada no teu abraço muito quieta, sentindo a chuva a cair mas tal parecia impossível. Eu simplesmente não te agradava.  

 

 - Vês? – disseste num lampejo de impaciência para comigo – Agora ficaste aborrecida e silenciosa devido ao que te disse.

 

 - É que… acho que não consigo ser modelada ao nível da descontração, Tiago. Não me havia apercebido que notaras os meus estados de espirito deploráveis, em certas ocasiões. Acho que é lícito da minha parte tê-los… Ah… sei lá… a minha família é uma treta, as coisas não me correm bem na escola, tenho comportamentos que nem eu própria compreendo e outros que me são estranhos – e acrescentei, hesitante, conseguindo escutar cada batida do teu coração – E, para piorar tudo, achas-me antipática, sensaborona e eu não sei como hei-de estar ou comportar-me perante ti.

 

Olhei-te sub-repticiamente para sondar a tua reação. Eu mal conseguia respirar, mas tu sorriste e lançaste uma gargalhada para o ar.

 

 - O teu problema é esse, Vanessa: seriedade! Tens de suportar o intolerável, viver o momento, atreveres-te, não te coibires de ser jovem e gozar o instante. Para de fazer projeções futuras no que quer que seja. Temos dezasseis anos de idade, por amor de Deus! - exclamaste com um tom de voz exasperante.

 

 - O quão descontraída queres que eu seja? - sussurrei.

 

 - Simplesmente descontraída!

 

A minha respiração alterou-se. O vento agora tornara-se numa aragem cada vez mais fresca que me emaranhava os cabelos no rosto e me chicoteava as faces. Os músculos estavam paralisados devido ao frio, devido a tua presença mas, acima de tudo, devido ao pensamento que me assaltara a mente e me fazia ferver o sangue nas veias: desejava beijar-te! Provavelmente, seria uma das maiores imprudências que faria na vida, contudo, foras tu a afirmar a minha apreensão e falta de destreza e que outro momento ideal, de perfeição teria eu a não ser aquele? Os lábios queimavam-se-me já de desejo. Os teus olhos contemplaram-me algo admirados e expectantes.

 

 - Parou de chover, Tiago – suspirei ansiosa – Tenho de me ir embora.

 

 - Já? – Observaste cuidadosamente, elevando a mão até ao teu cabelo completamente encharcado, para o puxares para trás e libertares o teu rosto das mesclas desalinhadas que te acariciavam a face.

 

 - Tenho mesmo de ir. Posso pedir-te uma coisa? -  perguntei reticente por entre dentes, com a respiração ofegante, a voz a falhar-me e uma luz incandescente a alumiar-me o olhar.

 

Detinhas uma expressão afável e calorosa, ainda que sustentada por rasgos de explícita curiosidade. O meu cabelo agitava-se ao sabor do vento. A chuva cessara de cair mas o ar humedecera ainda mais, causando-me arrepios intermitentes de frio e desejo frenético constante. As nuvens negras e espessas de baixa altitude ensombravam a capela, conferindo-lhe uma neblina mística e espectral que só tornava todo o cenário ainda mais apetecível a conclusão do nosso momento Estava completamente embriagada com a tua presença ali, naquele instante, naquele local, a minha mercê…

 

 - Vanessa! - exclamaste já algo ansioso – Querias pedir-me algo; o que é?

 

 - O teu colar…

 

Fitaste-me, estupidamente. Fizeste uma pausa na tua respiração e voltaste a olhar-me de soslaio. O silêncio era uma barreira entre nós, ainda que conseguisse escutar as batidas to teu coração, por mais inaudíveis que fossem. Interrompi os teus pensamentos absortos com uma risada ligeira, descontraída e acrescentei:

 

 - Quer dizer… desculpa, expressei-me mal. Não quero que me ofereças o teu colar. Quero que mo emprestes…só isso!

 

Demorastes alguns instantes a responder antes de proferires com alguma cautela.

 

- O meu colar?

 

 - Sim – anui 

 

- Mais alguma coisa? – perguntaste divertido.

 

 - Não, só isso – respondi-te num tom de gracejo.

 

Uma ruga minúscula desenhou-lhe no teu maxilar, acentuando ainda mais a cavidade onde a tua pele suave se deixa afundar, formando um declive que te é tão característico na tua fisionomia facial. Estavas prestes a responder-me, contudo, antes mesmo de te puderes pronunciar eu silenciei-te com um carinhoso e admoestador «Chiu» e ambos sorrimos.

 

 - Eu sei que o colar que usas faz parte de ti – afirmei-te hesitantemente.

 

 - Sim, é uma bugiganga – replicaste sardónica e momentaneamente zangado - tal como tu própria a classificaste no Verão passado, que possui um valor sentimental para mim. Não porque alguém ma tenha oferecido – acrescentaste – Mas porque acredito que me traz boas energias e é uma espécie de talismã/ amuleto – explicaste num ápice, mantendo o teu tom de voz ansioso e apertando ligeiramente os dedos em torno do teu colar multicolor de missangas.

 

 - Desculpa Tiago se o apelidei de bugiganga – respondi-te automaticamente – Podes emprestar-mo? – insisti.

 

 - Devias regressar a casa antes que chova, Vanessa. Porque queres que eu te empreste um colar, do qual, nunca me desfaço nem para tomar banho?

 

Corei face tal pergunta. A resposta era óbvia, apenas tu é que não a vias. Sentia-me a desfalecer perante ti. A aproximação do teu corpo junto ao meu estava a fazer com que deixasse de raciocinar e estivesse ao ponto de ficar inconsciente (ainda que não literalmente falando). Conseguia sentir o teu hálito, cheirar o teu perfume, antever o sabor do teu beijo, sentir o toque das tuas mãos em redor do meu pescoço e os teus olhos verdes a aglutinarem-me os sentidos, a toldarem-me o discernimento e os meus lábios ofegantes a irem de encontro aos teus, numa emergência de amor insaciável…

 

O céu clareara e agora transformara-se num cinzento-pérola que alumiava ainda mais a luminosidade incandescente do teu olhar. As árvores deixaram de ser sacudidas pela ferocidade impiedosa do vento. O silêncio manifestava-se entre nós. O meu estômago ainda se contorcia em espasmos de nervosismo. Tu já te devias ter apercebido que eu desejava fazer algo ou levar o colar emprestado como uma mera desculpa de ter um pouco de ti junto de mim, pois observavas-me, agora, com o teu rosto moreno, inusitada e surpreendentemente branco.

 

 - Tens razão, Tiago, é melhor ir andando – sorri – Ainda tenho de estudar Gil Vicente para o exame desta semana. Desculpa toda esta tensão e todo este diálogo sorumbático. Sabes ?  - exclamei com a voz límpida e finalmente controlada – Acho que tens razão relativamente a mim, não possuo um grande dom para o domínio da mente sobre a matéria, tão pouco para o domínio do razão sobre a coração; daí as minhas mudanças voláteis de humor. Eu sou comandada pela voz dos sentidos – conclui laconicamente.

 

 - Vanessa…espera.

 

Com muito cuidado, encostaste suavemente a ponta dos teus dedos ao fecho dourado do teu colar de missangas e retiraste-o do pescoço. Contornaste o meu corpo num semicírculo e posicionaste os teus braços sobre os meus ombros. Os meus olhos azuis incendiaram-se. Todo o meu sistema nervoso central reagiu ao teu toque num arrepio que se me aflorou o ventre e terminou na espinha, libertando em mim, um cocktail químico explosivo de dopamina e oxitocina que me coibiram de inspirar e expirar, repentinamente.

 

Discretamente, arquejei o meu corpo para trás, inclinei a minha cabeça na direção das tuas mãos, ficando, subitamente, paralisada e de olhos semicerrados. Descontraí os braços, deixando-os cair junto ao ancas, enquanto uma das tuas mãos se cingia a minha cintura, puxando todo o meu corpo de encontro ao teu peito. O impacto com o teu peito fez-me ficar sem fôlego, uma vez mais: eu desaprendia a arte de respirar a teu lado, Tiago!

 

 - Ah… – tentei interromper, mas a minha voz não passava de um murmúrio inaudível. Mantive-me de pé com as pernas trémulas, enquanto delicadamente tu agarravas nos meus cabelos, fazendo um puxo, com ambas as mãos, roçando suavemente as pontas dos teus dedos na minha clavícula. Projetei a cabeça ainda mais bruscamente para trás, enquanto sentia o teu coração a bater aceleradamente ao colocares-me o teu colar de missangas em redor do meu pescoço. As minhas costas encontravam-se firmemente encostadas ao teu peito. Gemi em surdina, de modo a que não me pudesses escutar, no entanto, senti as tuas mãos soltarem-me o cabelo e a tua voz de veludo sussurrar-me ao ouvido:

 

- Cuida bem dele. Não te esqueças, Vanessa… É uma parte de mim que levas contigo para casa – a tua voz jovial, de repente, adquirira um tom sério.

 

Aquelas palavras haviam sido sopradas ao meu ouvido num tom demasiado sedutor. Libertei o meu corpo de encontro ao teu peito. Ainda me encontrava de costas voltadas para ti quando as proferiras, sem puder contemplar-te o rosto e tentar decifrar o que se passava no âmago da tua alma. Nervosamente, percorri a pele do meu braço numa tentativa vã de erradicar a reação de pele de galinha que acabaras de me provocar.

 

Tentei lembrar-me do Simão e de como ele encostara os seus lábios quentes junto aos meus numa tarde de Verão em que eu colocara os meus braços a volta do seu pescoço e me entregara aos seus beijos, as suas carícias e me afundara no seu abraço profundo quando este me envolvera a cintura.

 

Sem ter bem a certeza do que fazia, virei-me de frente para ti. Os nossos olhares mesclaram-se nesse momento. O meu raciocínio estava descoordenado e lamentavelmente uma lástima, aquela altura do campeonato. Inspirei profundamente; tinha-te ali a escassos centímetros da minha boca. Pude desenhar o contorno dos teus lábios sem que me fosse mesmo necessário tocá-los.

 

 - Obrigado, Tiago! – balbuciei com a voz embargada.

 

O teu sorriso era inteligível e a tua íris parecia ter-se transmutado. O meu olhar voltou a semicerrar-se e colei os meus lábios as maças do teu rosto, incidindo, por instantes, toda a minha paixão na tua face ruborizada, deixando os meus lábios irem escorregando em declive até ao encontro dos teus. No entanto, detive-me. Não conseguia desviar o meu olhar da perfeição do teu e do desalinho do teu cabelo desgrenhado. Era preferível puder olhar-te olhos nos olhos e admirar-te a afugentar-te com uma atitude irrefletida e precipitada. Cruzei os braços, dei uns passos para trás, não fazendo qualquer movimento para evitar a chuva que voltara a cair e enfiei o capuz na cabeça.

 

Conservei uma boa distância de segurança entre a tua pele e o meu corpo. Acariciei o colar que me colocaras em torno do pescoço e prometi-te cuidar bem dele. Estávamos ambos enregelados e tensos. Despedi-me de ti, com ansiedade, e atabalhoadamente, esquecendo-me, por momentos, que talvez aquela fosse a única oportunidade que possuiria na vida de beijar-te. Mas, tal como tu próprio o disseras, erámos novos, tínhamos apenas dezasseis anos, o espectro das possibilidades eram tantas…

 

Who Knew ?

 

Vanessa Paquete 2014©

All Rights Reserved

 

 
What Would Happen If We Kiss?
Curiosamente, aquela não viria a ser a primeira nem a última vez em que estivemos a sós em que me apeteceu beijar-te
You Got Lucky ( I was too shy ) {#emotions_dlg.heart}

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