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FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

TIAGO MADALENA ( VI INTERVIEW ABOUT HIM - THAT BOY SHOUD BE MINE )

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Passou-se um mês até conseguir uma VI entrevista com a Vanessa. Para trás ainda se encontravam todas as nossas conversas feitas presencialmente em Setúbal, conversas essas que, muito preguiçosamente, ela nem pegou. Pareceu-me que o progresso nas transcrições das mesmas estava a ser um processo moroso e algo complicado para ela, ou tão simplesmente, Vanessa arranjara tal como desculpa, pois evadia-se do assunto sempre que eu o focava. A sua ausência confidencial na rede cibernauta que costuma utilizar também me levou a crer que algo se havia transformado nela; de uma Vanessa intimista e sempre pronta a dinamitar o mundo, passamos a ver uma Vanessa muito mais recatada, silenciosa, pouquíssimo focada no seu passado ou nos seus males presentes e mais direcionada para dar-nos alguns bons singles de música ou exibir o seu trabalho enquanto fotógrafa e jornalista/escritora! Dado o contexto da nossa última conversa, e por aquilo que já havia percecionado no próprio Blog, havia algo relativamente as nossas conversas acerca do Tiago que a maçava francamente, como se já não dispusesse de tempo ou paciência sequer para as encetar, por isso, foi com grande espanto meu que rececionei um telefonema seu espontâneo, a comunicar-me que estava pronta para a próxima entrevista. Tinha acabado de fazer um Evento e planeava ficar parada durante umas semanas, e estava disponível para entrar numa série de telefonemas regulares comigo. A nossa conversa, propriamente dita, teve lugar só duas semanas depois desse seu inesperado telefonema. A sua voz soava como um sussurro, como uma espécie de cântico subaquático de tão letárgica que era. Como sempre – na Vanessa – tudo é imprevisível; acabamos a falar de tudo e mais alguma coisa, desde relacionamentos, a Tiago Madalena, futebol e Avenida Brasil (risos).

 

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Helena: Eu ando verdadeiramente impressionada contigo; andas silenciada, titubeante…Sinto um nervosismo amiúde na tua voz. Já me disseste, por diversas vezes, que confidenciar-me os teus sentimentos é um ato de fé e de redenção para com o teu passado, uma espécie de pacto de honra para com a Vanessa que amou incondicionalmente o Tiago – ou o fantasiou – se assim preferires, durante anos; tudo isto é em nome dessa Vanessa?

 

Vanessa: (a sua voz entristece) Indubitavelmente: ela merece-o! A pessoa que eu fui no meu passado pelo Tiago (cada vez me convenço mais disso) necessita de um prémio de consolação. Uma pessoa não desperdiça 22 anos da sua vida, planifica uma existência inteira, abdica de casamentos, infere em riscos, modifica cada mínimo detalhe da sua vida (ou tenta pelo menos modifica-lo) desde a sua fisionomia até a sua psique e condição monetária e fica no limbo. Eu não sou essa pessoa! (está zangada e de péssimo humor)

 

Helena: Vejo-te mais ferida no orgulho de que no coração; será possível?

 

Vanessa: Sim e não! Presentemente, eu tenho aquela clarividente e perfeita consciência da minha paixão incondicional e avassaladora pelo Tiago, uma paixão tão forte e dedicada que – a exceção de fazê-lo contigo – não desejarei ouvir o seu nome ou ver a sua cara nos anos vindouros e rezo a Deus para que tal aconteça. Os meus sentimentos para com ele, presentemente, são tão cordiais quanto imparciais! Existe um pedaço de mim que o crucifica numa cruz e a culpa de tudo (suspira) e existe outra metade de mim que o iliba do purgatório, ao qual, o condeno tão frequentemente e clarifica tudo na minha cabeça e dardeja-me com racionalidade, bom senso e lucidez. Essa parte de mim é revestida de pura sensatez e impele-me a ser cordial e imparcial.

 

Helena: Estás com um tom de voz constrito; estás bem? (a sua seriedade de voz começa a preocupar-me, não parece que esteja com um humor favorável a uma conversação acerca do Tiago, parece-me claramente mal-humorada) Queres que paremos? Podemos deixar a conversa para outro dia, se quiseres!

 

Vanessa: Não, não… Não te preocupes! Podemos continuar!

 

Helena: Hmm…Queria direcionar esta entrevista para um campo mais direto, conciso, incisivo e intimista. Questão, resposta direta e curta!

 

Vanessa: (ri-se) … Como uma espécie de “Verdade Ou Consequência”?

 

Helena: Se assim o entenderes. Será uma entrevista, quiçá, mais encurtada e sucinta mas, em simultâneo, esclarecedora em determinados aspetos, e muito enigmática noutros!

 

Vanessa: (risos interrompendo-me) Tu queres ver-me a ser linchada em Leça?

 

Helena: Então estás a sugerir que…

 

Vanessa: (ri copiosamente) Oh Helena, queres ver-me a arder num auto-de-fé? É exatamente isso que estou a sugerir.

 

Helena: Tens de ser sempre tão dramática?

 

Vanessa: (suspira e fica pensativa).Tenho! Faz parte da minha personalidade, mas, na realidade apenas te disse aquilo em que acredito. Se quiseres ver-me a arder num auto-de-fé, ao invés, de passares os próximos meses numa cavaqueira acesa comigo podes prosseguir…

 

Helena: Ok, para começar, tens qualquer medo ou receio daquilo que publicas neste Blog?

 

Vanessa: (a sua voz mostra-se cautelosa) Queres mesmo que te diga a verdade? Sim, tenho bastante receio! Do outro lado sempre recebi e hei-de receber um silêncio gélido capaz de tornar o fogo frio e não importa se quem partilha a sua cama é a Joana, a Mariana ou a Diana. Aos onze anos de idade eu já me encontrava aqui. Ele já estava a minha frente. Todas as outras chegaram depois. “ Peço desculpa e com licença mas afastem-se dele que o primeiro lugar da fila pertence-me a mim! “ Isto foi o que sempre me apeteceu gritar-lhes desde o início mas é um pouco louco e presunçoso, não? Aliás, absolutamente insano! Mas estou a ser-te tão sincera neste momento que nem imaginas, sempre me apeteceu gritar isto alto e bom som, porém, o tal bom senso, a lucidez, aquele lado chato e racional que existe em nós, nunca me permitiu andar a fazer tal coisa. Fiquei destroçada. Frustrada. Zangada. De coração partido. De rastos. Num tumulto inatingível e ruidoso. Nunca interferi em nada. Concedi-lhe carta-branca e um total livre arbítrio para viver a sua vida: que mais podia eu fazer? Exclamar que ele me pertencia por direito porque eu o vira primeiro e decidira, muito antes que qualquer outra pessoa, devotar-lhe a minha vida? Isso não teria qualquer lógica! E parecia algo louco, não? Para ser-te sincera – e num ato de genuína insanidade e ebriedade - eu gostaria muito de ter exclamado numa voz furiosa, que nem um Quos Ego, “ Hey, este homem é meu compreendido? Eu vi e percecionei a mulher que ele desejava do seu lado quando ele tinha apenas quinze anos de idade, ok? E por onde andavam vocês nessa altura? Muito provavelmente a brincar com Barbies e Kens! Deixem o lugar a quem de seu devido respeito ele pertence! “

 

Helena: (risos compulsivos) Eu pedi-te para seres franca, mas, o tom da tua voz está tão zangado… Sinto que o que estás a dizer te sai mesmo das entranhas. Quase consigo ver-te a franzir o sobrolho do outro lado da linha e armada até os dentes… E perdoa a minha ignorância mas tu querias gritar-lhes o quê que nem um quem? (rio-me…não faço a mínima ideia o que será um Quos Ego)

 

Vanessa: Oh Céus; o que fui eu dizer? Não se pode apagar o último parágrafo? Acho que me excedi um pouco.

 

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Helena: (A Vanessa soa-me deveras preocupada mas eu não consigo parar de rir, quase que a imaginei na minha cabeça como a personagem da nossa infância – a Mafaldinha – de punho erguido e colérica a gritar com indignação contra o facto de o Tiago não ser seu e, por mais que eu tentasse, não conseguia dissipar aquela imagem da minha cabeça) Desculpa, a sério, só que ocorreu-me algo a cabeça e acabei por desfazer-me em risos. Não queria de maneira alguma ferir a tua susceptiblidade. Desculpa – exclamei – mas é que gritaste-me de uma maneira tão furiosa que parecia que um arpão me ia trespassar do outro lado da linha…

 

Vanessa: Por isso mesmo te peço para apagares aquele parágrafo (a sua voz soa a uma súplica)

 

Sendo a Vanessa a transcritora – por natureza – e a avaliadora oficial de todas as conversas que encetamos, evidentemente que tudo o que ela ache impróprio pode ser apagado, todavia, logo no inicio destas entrevistas houve uma espécie de pacto entre nós: a sinceridade seria o nosso cunho de marca. Nem eu, nem ela, pretendíamos andar para aqui a encenar conversas ciciadas só para toda a gente figurar bem na cartilha. Ela ter-me-ia de dizer a verdade. Ser honesta para comigo e, acima de tudo, honesta para consigo própria, portanto, o paragrafo ficou, pois ela disse-o com a mais férrea das convicções e respeitou o meu pedido de transparência absoluta, ainda que em pânico.

 

Helena Coelho: Ainda não me explicaste. O que é um Quos Ego?

 

Vanessa Paquete: (responde-me com um ar maçador e, nota-se, bastante chateada) Quos Ego é uma forma de expressão; é com estas palavras que Neptuno dirige a sua ameaça aos ventos desencadeados sobre o mar; satisfeita?

 

Helena Coelho: Sim. Diz-me uma coisa: lidas bem com a rejeição? Tiveste resmas de namorados. A tua pacificação com o teu passado em relação a eles é assoberbante; as tuas relações passadas não te causaram mágoa, dor, saudosismo? O Duarte abandonou-te após sete anos de namoro a porta do Tiago; não sofreste? Tu pareces a Santa Rita de Cácia com todos os teus ex-namorados: perdoa-lhes todos e quaisquer percalços, coloca-los num pedestal, exacerbas e vês sempre o lado maravilhoso deles, deseja-lhes paz, amor e felicidade e nunca se escuta uma palavra maldizente vinda da tua boca acerca deles ou das mulheres que os arrebataram. É incompreensível.

 

Vanessa Paquete: Tens razão (sorri). Adoro os meus ex-namorados. Não te vou negar que existiram discussões, percalços no meio do caminho e até desfechos mais agressivos que também sempre perdoei. As primeiras horas e os primeiros três meses eram de uma dor acutilante e desesperante. Muitas lágrimas rolaram por outros homens. Recordo-me de cada abandono; dos meus olhos verdes cor de topázio (ficam dessa cor quando choro) ficarem enxagues, duros e absolutamente incapacitados de se abrirem perante a luminosidade devido ao choro compulsivo.

 

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Helena Coelho: E como é que ultrapassavas isso?

 

Vanessa Paquete: Acontecia um milagre (ri-se). O chamado milagre do santíssimo “ Tiago Madalena “. Um dia amanhecia, o ácido venenoso e corrosivo havia desaparecido das minhas veias, o meu corpo entorpecido ganhava forças, o meu rosto vestia uma máscara de serenidade, levantava-me vagarosamente e ia percorrer as fotografias do meu ex-amado com os dedos. Ao fazê-lo, por mera coincidência do destino, ou seja lá o que for que se acredite, ao arrumar a caixa ou envelope num sítio qualquer caia-me aos pés uma fotografia do Tiago. Estranha e assustadoramente era sempre a mesma. Os meus joelhos começavam a tremer, o sangue começava a correr muito mais depressa do que o normal nas minhas veias. Eu contemplava a fotografia com um ar distante até que a apanhava. Depunha-a sobre a cama e era como se esperasse uma resposta, uma solução, algo… A partir daquele momento toda a dor desaparecia do meu peito. O amor que eu havia vivido tornava-se numa doce recordação. As más recordações em farrapos de nuvem perdidos no céu que eu não tinha o mínimo interesse de manter junto a mim. A alforria do meu coração escravizado por aquele amor que me havia magoado era assinada. A vida passava a ganhar sentido outra vez: eu voltara para o meu antigo amo e senhor, o Tiago! Ao longo da minha vida eu tropecei muitas vezes e apeteceu-me-verdadeiramente- torcer o pescoço a algumas pessoas, mas, o Tiago salvou mais pessoas do que ele alguma vez na vida possa imaginar. O meu apego a ele fez com que todos os outros ex-namorados seguissem com as suas vidas, se cassassem, tivessem filhos e não tivessem de levar com um furacão de nome “ Vanessa “. Tenho um grande apreço por todas as relações que encetei. Guardo-os na minha memória com um grande carinho e só posso elevar e agradecer o facto de me terem concedido uma oportunidade de compartilhar a minha vida com eles. Deram-me momentos extraordinários (todos, cada qual a sua maneira) e adoro-os! Não possuo qualquer mágoa, rancor, inveja ou ciúme, apenas uma grande sensação de conforto e felicidade por os ter tido na minha vida e por os ter podido amar e por ter sido amada por eles.

 

Helena Coelho: Isso é que é algo desconcertante! Tu não sentes nada relativamente a uma centena de pessoas que passaram na tua vida…

 

Vanessa Paquete: Sinto que foram estórias que aconteceram, foram vivenciadas por mim e tiveram o seu término. Vejo por aí muitas mulheres e homens a sofrerem após um ano ou dois de um relacionamento ter terminado e – por muito que me esforce – não consigo interiorizar as suas dores porque nunca vivi nada do gênero. Recentemente, algumas pessoas procuraram-me devido aos textos escritos para o Tiago. Pensaram que poderiam compartilhar comigo a sua estória e que eu poderia consola-las ou dar-lhes algum conselho – ou em última instância – dizer-lhes como se ultrapassa o saudosismo, a falta da pele, o maldito latejar das feridas. Fiquei confusa, confesso-te! Tive de lhes explicar mais intimamente o que havia acontecido entre mim e o Tiago para que compreendessem que não existiam quaisquer paralelismos nas nossas estórias e que – na realidade – eu não podia ajuda-las em absolutamente nada do que estavam a sentir, tendo em conta que só se sente falta daquilo que se possuiu!

 

Helena Coelho: (sorrio perante a sua honestidade) Uma das qualidades que sempre mais apreciei em ti foi a tua sinceridade, sabes? A maneira como te revelas e sem quaisquer vírgulas ou parêntesis a mais, contas a tua estória de amor impossível pelo Tiago e não lhe acrescentas contos e ditos, embora eu saiba que, do fundo da tua alma, tivesses desejado acrescentar-lhe reticências…

 

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Vanessa Paquete: Sim, é uma verdade irrefutável! Nunca ninguém o conseguiu substituir no meu coração ou ocupar o seu lugar. De cada vez que empreendia uma relação vivia sempre uma vida dupla, algo em que me tornei exímia: amar em paralelo, fazer sexo em paralelo, sincronizar os meus lábios com os de outra boca quando, muitas das vezes, os meus neurotransmissores estavam absolutamente sintonizados nos lábios dele. Aconteceu-me tantas vezes adormecer numa outra cama a tê-lo na minha cabeça como último pensamento que lhes perdi a conta. No final, acaba por se tornar um hábito! Resignamo-nos à vida. Acostumamo-nos a que a existência seja assim.

 

 

Helena Coelho: Não é algo constrangedor e sinistro? Não te sentias aprisionada?

 

Vanessa Paquete: (dá uma pequena risada) Sim, posso confessar-te que tive muita sorte com os homens que encontrei, as estórias que empreendi e a maneira como as encaminhei! Para começar, sempre preservei a minha independência daí que esteja na miséria (ri-se). Eu estabelecia regras muito rígidas relativamente ao meu espaço e devo ser a única mulher que conheço a face do planeta que abandonava os homens na cama a meio da noite para ir dormir para o sofá deles, tal era a minha impossibilidade de respirar! Por vezes, quando saiamos juntos, íamos a lugares maravilhosos e ridiculamente românticos como é o caso de Londres ou Paris, Barcelona, Madrid, Roma e por ai fora. Nas ruas avistava os casais em cenas impregnadas de tanto amor que até me dava um nó no estômago; aquilo era pior do que qualquer filme romântico, era tão real que gritava alegria, vida e amor verdadeiro. Por norma, eu tentava ignorar a paz absoluta daqueles momentos e concentrava-me na beleza das cidades em si. As cidades apaixonavam-me. Os seus monumentos faziam-me ficar grata pela distração que me proporcionavam. Sempre fui uma entusiasta de viagens, por isso, cada cidade em si tinha a capacidade de fazer-me ama-la e ser feliz nesse local, mas, era inevitável não passares por um local especifico e, como o tiquetaque de um relógio, despertares para uma sensação de vazio e dor beligerante ao trespassar-te o rosto do Tiago pela mente. Nessas alturas suspirava e aguentava estoicamente; eu parecia destinada a estar nos lugares mais românticos do mundo sem o homem que verdadeiramente desejava a meu lado. Essa é a estória da minha vida adulta ! Cheguei a sentir saudades da nossa vida de adolescente quando tudo o que possuíamos era uma mera escola, as minhas prerrogativas e a sua indulgência para comigo.

 

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Vanessa viu Tiago pela 1ª vez há 25 anos atrás, no falecido cinema Chaplin de Leça da Palmeira. Era apenas uma miúda de onze anos de idade e ele uma criança de dez. Em exibição encontrava-se o filme " Pretty Woman ". Vanessa confessou-me que - na altura - sentiu-se mais envergonhada e constrangida do que outra coisa qualquer, por estar a assistir a um filme tão ousado, acompanhada pela enteada do seu pai e com apenas mais três miúdos na sala que gracejavam por tudo e por nada e fizeram-na sentir extremamente pouco à vontade: " Nós erámos umas crianças a assistir a cenas sexuais implícitas. Recordo-me o momento em que Vivien vai ter com Edward ao loby do restaurante onde este tocava piano, e Edward a puxa para si, a agarra pelas ancas e crava a sua face bem no seio da cavidade das suas cochas. O Ivo e o Tiago só assobiavam. Eu - literalmente - escorreguei pelo banco abaixo, pejada de vergonha. Creio que essa é a razão - pela qual - só uns meses mais tarde eu viria a encarar o Tiago efetivamente. Cruzamo-nos na Figueira da Foz; embatemos de relance um no outro a saída de um autocarro. Curiosamente, não liguei (ri-se)! Já de regresso a casa, algures na A1, o Tiago meteu conversa comigo e o resto é história.(solta umas boas gargalhadas)

 

Helena Coelho: Contigo é impossível ter-se respostas sucintas (rio-me)! É melhor alternarmos para uma espécie de questionário, talvez seja mais fácil.

 

Vanessa Paquete: Mas porquê? Estou a ter um comportamento exemplar. Questionas-me eu respondo-te.

 

Helena Coelho: Sim, só que perdemo-nos sempre muito em pormenores e em detalhes e eu queria encetar outro gênero de entrevista contigo mas não consigo, eu própria deixo-me levar por essa estória, por aquilo que vais contando… Diz-me; recordaste de algum episódio específico com algum namorado teu que o Tiago estivesse na tua cabeça?

 

Vanessa Paquete: (a sua voz dá uma sonora gargalhada) Estás a brincar comigo? Queres que te enumere às centenas, aos milhares ou que escolha apenas um ou outro marcante?

 

Helena Coelho: (balbuciei um pouco ao responder-lhe, acabara de me aperceber que nunca esquecera o Tiago por um só segundo e que, efetivamente, parecia ser dona de uma vida dupla) Apenas um…ou dois, consoante preferires!

 

Vanessa Paquete: Existiram muitos para te ser honesta. Com variadíssimas pessoas diferentes. Por vezes, tinha em meu redor uma família inteira a planear a minha vida e futuro promissor, e a minha cabeça estava perdida numa carta que estava a redigir ao Tiago, num qualquer concurso internacional, para o qual, tinha de enviar uma série de letras de canções ou num programa de rádio, para o qual, tinha de escrever uns quantos poemas e o Tiago, claro, era a fonte de inspiração. Fui apanhada desprevenida, variadíssimas vezes, perdida nos meus devaneios, enquanto em meu redor toda a gente planeava a minha existência; não te soa estranho?

 

Helena Coelho: Parece-me estranho e uma verdadeira negligência da tua parte para com a tua própria vida. Eu sei que sempre detestaste que comandassem as coordenadas da tua existência, mas pude percecionar que muita gente acreditou em ti, investiu em ti e sonhou-te do seu lado, sogras, inclusive, o que é algo tão raro e invulgar.

 

Vanessa Paquete: Sim, é algo muito raro; uma sogra receber-te de braços abertos em sua casa logo após umas semanas de te conhecer. Mas aí encontra-se a ironia de toda a situação. Eu era uma rapariga muito bonita naquela altura, erudita, extremamente eloquente, muito bem-educada (treinara-me bem para conquistar o Tiago), parecia advinda de boas raízes, e, logo na primeira troca de palavras, conseguia sempre cativar os progenitores. Eu sempre fui muito maleável e adaptável. Quem passa pela casa de cerca de cinco a seis famílias em namoros já de contornos sérios, tem de se ambientar a dinâmica daquela prol e eu habituava-me muito facilmente as rotinas, apreendia os costumes das famílias, os seus afazeres. Alguns dos meus ex-namorados apaixonavam-se por mim e desejavam, de imediato, apresentar-me a família. Como deves calcular, na maior parte das vezes, ia reticente, mas, a minha carência familiar também era tão grande que não resistia. Eles ficavam deslumbrados comigo e acreditavam que eu era a pessoa perfeita para ser apresentada ao clã: em cerca de quatro namoros eu fui a primeira rapariga a pisar o chão da casa deles. Evidentemente, que, como deves calcular, uma mentira sustenta-se durante pouquíssimo tempo e se existe algo que eu aprendi com as mães dos meus ex-namorados é que realmente o coração de um mãe consegue intuir se aquela mulher ama o seu filho ou não. Eu não amava. Encontrava-me apaixonada secretamente por outro. Ninguém sabia quem era. Contudo, elas intuíam que o meu coração não pertencia ao dos seus filhos. A partir dessa descoberta, eu tinha de lidar com a desconfiança parental. As suas suposições incomodavam-me sobejamente. Era desagradável estares num local e as pessoas em teu redor, passado um ano, começarem a tomar-te por uma interesseira porque a família possuía uma série de posses. Eu própria acabava os relacionamentos ou fazia por os terminar, da maneira mais conveniente possível. O meu orgulho falava mais alto. Desde a adolescência que acreditava que o verdadeiro amor podia ser sustentado com afeição e uma cabana (ri-se), evidentemente, que as dezenas de pessoas que entraram na minha vida e o próprio Tiago viriam a provar-me o contrário. Mas (inspira profundamente), deixemos o capítulo da transição de famílias para outra altura porque, valha-me Deus, consegues imaginar o quanto tenho para contar?

 

Helena Coelho: (rio-me) Sim, imagino. Já começa a ser algo regular deixarmos todas as entrevistas com um desfecho em aberto. Começa a ser um péssimo hábito não se finalizar os capítulos, temos de aprimorar isso, portanto, conta-me os dois episódios que te pedi em que estivesses com um namorado e o Tiago estivesse na tua cabeça.

 

Vanessa Paquete: Ah, sim, olha dois deles aconteceram em dois momentos muito especiais da minha vida no ano de 2004: no concerto da Madonna, na sua Re-Invention Tour, e na Final do Euro 2004 no Estádio da Luz. Creio que aguardei uma vida inteira pela concretização desses dois sonhos. Sabes o quão sou ligada ao meio futebolístico, quer por afeição do coração, quer pelas minhas próprias raízes familiares que, em grande parte, têm ou tiveram conexões ao meio, nomeadamente a quatro Clubes distintos: o Leça Futebol Clube, ao qual o meu pai dedicou grande parte da minha adolescência estando sempre na mesa da assembleia do Clube, ajudando-o a singrar, dando o litro para que o Clube prosperasse; o Boavista Futebol Clube, do qual, o meu avô materno fazia parte da direção há cerca de quarenta anos, acompanhando o Clube para todo o lado, desde Ligas Europeias etecetera - nos tempos áureos do Boavista; o Benfica – o meu pai fez parte da Comissão que lutou arduamente para que a I casa do Benfica na nossa região da Invicta se erguesse e fosse inaugurada em Novembro de 2001 pelo próprio presidente do SLB, o Dr. Manuel Vilarinho -; e o Espinho onde alguns dos meus primos foram titulares da equipa Sénior.

 

Helena Coelho: (interrompo-o a meio) Ena, Ena, olha a baba a cair-te (rio-me imenso porque a pormenorização dos detalhes demonstra um grande orgulho na família, da qual, tão separada está) Esse é outro capítulo que não podemos deixar escapar (rio-me), temos de dedicar uma entrevista inteira ao meio futebolístico porque, de alguma maneira, a tua família, quer do lado paterno, quer do lado materno, esteve intrinsecamente ligada aos Clubes principais por onde o Tiago passou.

 

Vanessa Paquete: (ri-se descomunalmente) Creio que se não fôssemos tão casmurros e não tivéssemos criado uma tensão tão grande entre nós, erámos capaz de ter muitos assuntos em comum a abordar, mas, o Tiago é e sempre foi casmurro e apático para comigo e, verdade seja dita, eu também só abria a boca para dizer disparates e estupidezes: perdia o meu chão e atrapalhava-me sempre a seu lado. Era ciumenta, possessiva e amuava que nem uma criança. (faz uma pausa). Ainda amuo por causa dele (ri-se). Mas hoje quando olho para trás apercebo-me que tínhamos as mesmas raízes, consequentemente, muito para conversar, mas, eu era um cristalzinho muito delicado que se partia a mínima critica e ao mínimo olhar de desaprovação e, como já referi por diversas vezes, intimamente, sempre acreditei que era a boa aparência que ditava as suas amizades e não o intelecto ou a conversa, propriamente dita, por isso, cada qual tinha as suas convicções, crenças e religião e eu acreditava que a dele era aquela: um cocktail de beleza, sociabilidade e futilidade; algo que jamais eu lhe poderia oferecer, não naquela altura. O tempo e a arte de saber aguardar era o trunfo que eu tinha na manga (suspira)!

 

Helena Coelho: O teu pai acompanhou a ascensão vanguarda do Leça Futebol Clube a I Divisão, passava a vida junto do Clube e nas primeiras páginas dos jornais regionais. Sei que a tua relação com o teu pai é impossível de ser decifrada e está repleta de uma espessa camada de nuvens negras, contudo, orgulhaste bastante de tal ter-se passado.

 

Vanessa Paquete: Sim, quem não ficaria? (ri-se). Foi um momento apoteótico das nossas vidas e até eu que sonhava unicamente e tão simplesmente com as cores axadrezadas do Boavista Futebol Clube e ia absolutamente contrariada aos jogos do Leça, acabei por juntar-me a festa. Os meus quinze anos de idade livraram-me de ter de acompanhar o Clube para todo o lado e quando refiro todo o lado significa isso que, aos Domingos, era-me impossível sentar-me comodamente na cama e começar a mudar os canais de televisão distraidamente porque era dia de jogo e tinha de acompanhar a família: o meu pai, a uma dada altura da sua vida, com o seu terceiro casamento, tentou implementar uma filosofia muito cristã e tradicionalista no seio familiar: queria toda a gente unida! Eu achava aquilo algo estranho porque sempre acreditei em trajetórias de linhas retas, ou seja, uma família que possuía tantos solavancos e desvios de percurso como a nossa, quase que era indigna de se inserir naqueles cânones conservadores, porém, valeram as tentativas de redenção, acho eu (faz uma pausa), mas, adiante, eu sentia-me tão claustrofóbica que mal chegava ao estádio, encaminhava-me para o lado oposto das bancadas da minha família (ri-se). Quando a minha madrasta olhava para trás para depor os seus olhos sobre mim, eu já me havia esgueirado.

 

Helena Coelho: É verdade que também eras a única que não envergava as cores do Clube?

 

Vanessa Paquete: Como soubeste disso? Sim, é verdade, era muito difícil contrariar-me. Eu detinha uma personalidade indomável. Nunca percebi por que razão tinha de me arrastar atrás de um Clube, de vila em vila, de bandeira em estandarte e com um emblema verde e branco ao peito. Todos os restantes miúdos da minha casa (céus, parece que estou a falar de um orfanato - dá umas belas gargalhadas),faziam questão de vestir a camisola do Leça Futebol Clube mas eu esquivava-me sempre. Possuo uma fotografia comigo, tirada na sala de jantar da nossa casa, em que toda a gente está com uma taça de champanhe na mão a comemorar e a camisola do Leça vestida. É uma fotografia fantástica e uma boa recordação, apesar de eu não estar inserida na frame, como deves calcular. Um dia, numa próxima entrevista, abordamos mais amiúde o tema futebolístico pode ser?

 

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Em meados da década de 90, Vanessa, acreditava que o seu lugar era no campo que envergava as cores axdrezadas, lugar cativo do Tiago Madalena, enquanto campeão Juvenil da equpa do Boavista Futebol Clube, todavia, a sua familia era uma devota acérrima  do Leça Futebol Clube que, numa ascensão tão apoteótica, quanto controversa, foi galgando palmarés e divisões até atingir a I Liga. A familia que tinha grandes afinidades e conexões com o Clube, seguia-o para todo o lado, para grande desespero e tédio de Vanessa que sonhava acordada com o Tiago, e tão simplesmente com o Tiago. Por ironia do destino, Vanessa, não aceitava nem gostava de envergar a camisola do Clube, tampouco apreciava colocar o que quer que fosse em tons verde e branco: " Fazia-o como sinal de protesto, em jeito de contrariar a minha familia. Tal não me ilibava de assistir aos jogos ao Domingo de tarde no estádio, mas era a minha forma de rebeldia. " A sua madrasta que era uma fã incontestável do Clube, reagia com azedume  e tristeza a apatia de Vanessa para com o estandarte Leceiro, argumentando que ela só se interessava pelo Tiago. Vanessa confessa, rindo-se " Eu tinha por hábito andar sem óculos porque, embora sofresse de miopia, conseguia lidar muito bem com a minha deficiência ótica que era mínima. A minha madrasta costumava obrigar-me a colocar os óculos no estádio argumentando com desdém: " Escusas de te empinocar toda, o Tiago não está aqui, mas sim noutro estádio, bem distante deste. Põem-me os óculos na cara que quem tu queres não está lá em baixo no relvado." Mal sabia a sua madrasta que Tiago, efetivamente, acabaria por tornar-se capitão do Leça Futebol Clube, uns anos mais tarde, já na sua fase adulta (risos) 

 

Helena Coelho: Sim, claro: futebol, madrastas e Avenida Brasil (digo entusiasmada). É verdade que estás a visionar essa trama de ficção novamente?

 

Vanessa Paquete: Sim, é verdade! Tem uma estória de investigação excelente. Um argumento muito bem concebido e, por mais que eu tenha sido sobejamente gozada pelos amigos do Tiago, é óbvio que a Avenida Brasil me traz muitas lembranças a cabeça, mas, se não conhecem a nossa história passada não podemos estar a espera que alguém a vá entender. Não tem simplesmente a ver com o Tiago. Tem muitas referências ligadas a minha mãe na personagem da Adriana Esteves, e no seu passado encoberto e sombrio. A personagem da Carmem Lúcia tem alguns laivos das minhas discussões com a minha madrasta e o seu passado marcas impregnadas do passado da minha mãe, como tal, é uma mixagem que me comoveu muito. Muito mais do que a personagem da Débora Falabella, foi a personagem da Adriana que me entrou no coração, principalmente, o seu amor incondicional pelo personagem do Cauã. É ficção, já todos nós sabemos, mas os amigos do Tiago não sonham nem imaginam o quanto existem réplicas do meu passado por ali espalhado e, claro, o futebol… os “ goleiros “ do Divino Futebol Clube e a história de um amor de infância como para-quedas para as intempéries da vida! O futebol de um Clube da Divisão B e o amor de infância de um catraio de doze anos: impossível de resistir para alguém com uma história tão sui generis como a minha. Numa narrativa muito complexa e singular foi como se, finalmente, alguém me tivesse dado razão e estivesse a comprovar que aquilo que eu apregoara durante anos era possível. Finalmente arranjara uma aliada na trama de João Emanuel Carneiro. Foi um grito de “ Aleluia “. Sinceramente, sendo fã da Rede Globo, para mim, a Avenida Brasil, foi a cereja no topo do bolo das suas produções!

 

 

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    Cauã Reymond enquanto jogador do Divino Futebol Clube                    Tiago Madalena no Perafita Futebol Clube

 

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Vanessa confessou ter-se inspirado na trama de Avenida Brasil para retratar o jogo deTiago.

As semelhanças estão a vista desarmada.

 

Helena Coelho: Vanessa (exclamo algo exasperada) os episódios por favor… Desta vez, parece que conseguiste escapar-te exemplarmente a perguntas mais diretas. Eu não quero finalizar a entrevista abruptamente e, sinceramente, ainda estou a ponderar se te deixo escapar do questionário (digo maliciosamente). Tu filtras tudo de uma maneira muito inteligente, fico sempre com a impressão de que foges a colocar o dedo na ferida. A tua diplomacia e educação para com o Tiago nunca vai ter um término? Vais continuar a mesclar estas páginas com mel e compota e a enchê-las de floreados? De cada vez que dizes algo mais incisivo, dás uma palmadinha nas costas por detrás e desculpas-te perante ele? Não consegues mesmo evitá-lo pois não?

 

Vanessa Paquete: Evitar o quê? (pronuncia com estranheza)

 

Helena Coelho: Amá-lo! (digo-o descaradamente)

 

Vanessa Paquete: (silenciou-se, creio que pasmada, e a tentar elaborar a resposta politicamente correta) Não sejas tonta! Simplesmente não desejo tatear um caminho às cegas e dizer parvoíces pelo meio, das quais, me hei-de arrepender um dia mais tarde. Sabes tão bem quanto eu que estou a caminhar descalça sobre montículos de fogo (pareceu-me irritada e de humor alternado de novo). Voltando, finalmente, ao concerto da Madonna, na sua Re-Invention Tour, e a Final do Euro 2004 no Estádio da Luz, esses dois momentos da minha vida, foram particularmente especiais para mim; vivi-os extasiada e com os pés sempre a levitar no ar. Era uma visão brilhante e demasiado ofuscante: dois dos meus maiores sonhos haviam-se tornado realidade, num curto espaço de três meses. Algures, no meio do seu alinhamento de reportório, Madonna interpretou no palco da Meo Arena “ Crazy For You “ . Sendo a minha música preferida da adolescência e um daqueles temas que andava sempre a trautear para o Tiago, escutá-la live, pela 1ª vez, foi uma emoção impossível de ser descrita. Pedi ao Duarte que me erguesse. Pousei as minhas mãos nos seus ombros segurando-me, com os dedos a fletirem-se com força nas suas costas. Chorei que nem uma perdida durante toda a interpretação da Madonna. Os meus olhos cegaram por completo com a lembrança do Tiago na minha cabeça. Apenas conseguia pensar nele e contemplá-lo a ele. Quando o tema finalizou e o Duarte me fez regressar ao piso da Meo Arena, ambos nos retraímos. Ele olhou-me algo espantado. Eu recuei e limpei freneticamente o meu olhar mas apenas conseguia pisca-lo febrilmente de cada vez que os meus olhos eram inundados de lágrimas. As pessoas em nosso redor contemplaram-nos vendo aquele meu choro lacrimal; eu havia desabado por completo! Salvou-me Madonna com “ Music “ e “ Holiday “ logo de seguida. Até os dias de hoje é o tema que eu e a Carla mais interpretamos quando cantamos juntas pois ela sabe o quanto “ Music “ representou para mim naquele dia. Foi o antídoto para as minhas lágrimas e a energia que eu precisava para fazer o espetáculo continuar.

 

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Vanessa, enquanto adolescente, sonhava ser como a Rainha da Pop, confessando, que Madonna foi uma grande inspiração para si ao longo de toda a sua vida.

 

Helena Coelho: E o outro quando aconteceu?

 

Vanessa Paquete: Na Final do Euro 2004, no Estádio da Luz. Não houve um único minuto da viagem nesse dia, um único segundo passado em Alcochete, na Academia ou um único momento do jogo em que não me recordasse do Tiago. Pensava sempre o quanto ele deveria adorar estar ali.

 

Helena Coelho: Nunca te ocorreu que ele poderia estar no mesmo local que tu a assistir a Final do Euro 2004, exatamente ali, no Estádio da Luz?

 

Vanessa Paquete: Sim…Mas como poderia sabê-lo?

 

Helena Coelho: Tenho uma última pergunta para te colocar que deixamos em aberto na última entrevista. Foste abandonada a porta do Tiago, no auge da madrugada, de uma noite estival do ano de 2005: como foi o desfecho dessa noite?

 

Vanessa Paquete: (silêncio) Fiquei atordoada. No rádio do carro tocava “ In Too Deep “ dos Genesis; uma música perfeita para uma despedida não achas? As minhas pernas enfraquecidas não me faziam avançar, o meu choro convulsivo não me permitia raciocinar; não conseguia caminhar até casa! Acabei por deixar-me ficar no chão, agachada entre duas viaturas que se encontravam estacionadas diante da porta do Tiago, premi a minha cabeça de encontro aos joelhos, abracei-os com as minhas mãos e desmanchei-me em lágrimas, tentando silencia-las para não atrair a atenção de ninguém sobre mim. Quando o Tiago chegou, vindo de uma saída qualquer entre amigos ou com outra mulher, virei-me de lado, subtilmente, para confirmar mesmo se era ele. As lágrimas irromperam-me ainda mais pelos olhos quando constatei que sim, que era ele. Tive de enroscar-me muito cuidadosamente sobre o meu próprio corpo para não ser descoberta, conseguir respirar, em simultâneo e abafar o meu choro. Sentia-me completamente desorientada e apenas as 06.00 da manhã consegui ser impelida pela minha consciência a ganhar forças para ir para casa.

 

Holliday LIVE em Lisboa, em Setembro de 2004, a música que salvou Vanessa, após ter escutado Madonna interpretar " Crazy For You " no hoje renomeado " Meo Arena ". “ Crazy For You “ , sendo a minha música preferida da adolescência e um daqueles temas que andava sempre a trautear para o Tiago, escutá-la live, pela 1ª vez, foi uma emoção impossível de ser descrita. Pedi ao Duarte que me erguesse. Pousei as minhas mãos nos seus ombros segurando-me, com os dedos a fletirem-se com força nas suas costas. Chorei que nem uma perdida durante toda a interpretação da Madonna. Os meus olhos cegaram por completo com a lembrança do Tiago na minha cabeça. Apenas conseguia pensar nele e contemplá-lo a ele. Quando o tema finalizou e o Duarte me fez regressar ao piso da Meo Arena, ambos nos retraímos. Ele olhou-me algo espantado. Eu recuei e limpei freneticamente o meu olhar mas apenas conseguia pisca-lo febrilmente de cada vez que os meus olhos eram inundados de lágrimas. As pessoas em nosso redor contemplaram-nos vendo aquele meu choro lacrimal; eu havia desabado por completo! Salvou-me Madonna com “ Music “ e “ Holliday “ logo de seguida. Aqueles dois temas foram o antídoto para as minhas lágrimas e a energia que eu precisava para fazer o espetáculo continuar.

 

 Vanessa Paquete 2015 ©

Helena Coelho 2015 ©

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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