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FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

MINHA HEROÍNA, MINHA COCAÍNA... MEU VICIO AMADO; MINHA VIDA & MINHA SINA / PARTE I

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Fui criada em Leça da Palmeira…

 

Nascida no Porto, mas Leceira de gema.

 

Em Leça, todos sabíamos, já desde tenra idade que objetivos alcançar na vida; vila primorosa, alegre, otimista, ladeada por praias sadias e os seus surfistas de cabelos louros e corpos morenos; vila de pessoas ambiciosas, inteligentes, provenientes de boas famílias a ostentar dinheiro. Secundária eximia, sem problemas danosos a relatar: o verdadeiro protótipo de uma Beverly Hill! A nossa maior guerrilha, porventura, seriam as roupas de marca que ostensivamente usávamos numa disputa acesa de quem se vestiria melhor, e, se não estávamos num Runaway Project, era certo e sabido que estaríamos a disputar o galã da escola.

 

Em Leça, ninguém sairia da Secundária sem concluir o 12º ano de Escolaridade, tampouco, sem um projeto de vida definido que incluía uma licenciatura, quiçá um Mestrado, um emprego estável e gabaroso, a edificação de um projeto empresarial e, claro, a constituição de uma família.

 

Fomos incentivados a fomentar a nossa cultura, a alargar horizontes e a viajar pelo mundo fora numa demanda de sorver tudo o que a vida nos podia oferecer. Sabíamos exatamente o que era certo e errado. A maior parte dos Leceiros interessaram-se por politica e participaram nas coligações ativamente após abandonar o Secundário. O projeto de vida estava afixado numa parede no quarto com todos os itens a serem seguidos; não havia como falhar!

 

E eles não falharam…

 

E quando falo neles, evidentemente, foco os meus colegas de Preparatória e Secundária: CEO de empresas, advogados, arquitetos, médicos, enfermeiros, professores, alguns juízes, músicos, outros contabilistas, engenheiros e por aí fora, eles não falharam.

 

Vícios? Os socialmente aceites! Tabaco e uma bebedeira entre amigos!

 

Quando calhei numa povoação com cerca de 1000 habitantes onde a Escolaridade mínima era o 9º Ano de Escolaridade e trabalhar como Caixa de Supermercado ou na Fábrica mais próxima na linha de montagem já era um emprego de gabarito e ser Operadora de Telemarketing o sonho Americano, estranhei, ÓBVIO!

 

Foi desconcertante!

 

Errático!

 

Pesado!

 

Assustador!

 

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Não obstante tal flagelo cultural, impus uma série de formações a mim própria na cidade mais próxima (a 6 Euros de Bus) e conclui mais uma série de cursos, ministrados por formadores coquetes lisboetas, também eles frustrados por terem sido atirados para uma Instituição onde a saída poderiam deparar-se com uma rixa entre etnias (por vezes, julguei estar a viver o filme “Dangerous Minds”).

 

Na povoação de 1000 habitantes, os mais velhos instituíram o comércio local e os mais novos ambicionam secretamente fugir, portanto, quando uma miúda do Porto se instalou num povoado tal pequeno, vinda da grande cidade Invicta (que muitos deles tampouco conhecem, mas sonham conhecer, um dia), a estranheza foi total!

 

Silenciosa, mas de olhar incisivo. Frustrada, mas de caracter forte. Débil e fragilizada, mas de transparência dúbia, eu era um mistério a ser decifrado. O olhar era tão forte, incisivo e observador e o caracter tão tripeiro, que muitos julgaram estar na presença de uma informadora da PJ infiltrada, algo que me arranca largas gargalhadas até hoje, dado que lá me recordo eu de mais um filme: “The Departed”!

 

Foi lançado um alerta para se ter extremo cuidado redobrado comigo e não se fazer confissões intimas e pessoais acerca de históricos familiares e afins na minha presença…

 

A meu constante apelo a GNR efetivamente e a minha veia tripeira convincente de conseguir fazer com que me seguissem para resolver tal caso as tantas da madrugada, só fez com que o cunho de “infiltrada” da PJ se cimentasse…

 

A minha natural empatia por quem não devia veio agravar o caso, dado que, efetivamente, ali havia narcos, todavia, e, curiosamente, foi empatia pura e visceral que permanece até hoje e até só aumentou…

 

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A cada morte (suicídio) que se sucedia neste povoado de jovens mais novos que eu, comecei a reviver um pouco “Twin Peaks “: Laura Palmer morrera à custa de drogas (para quem bem se recorda da estória). Miúda linda, aluna eximia, todavia, perdida no mundo das drogas e no seu abstrato onírico onde o sexo tomou também conta da sua vida e drogas como a heroína e a cocaína imperavam…

 

Uma perguntava que ficava no ar era sempre a do porquê do suicídio por enforcamento; o que teria levado tal pessoa a cometer tal ato? Desemprego? Drogas? Vazio existencial? Quando visito o cemitério assombrado por suicidas, mortes por overdose e um ou outro assassinato, diante da campa dos suicidas benzo-me ostensivamente e questiono: porquê? Como se as almas daqueles que conheci me fossem responder a alguma pergunta. Uma coisa é certa; tremo da cabeça aos pés e questiono-me quem seguir-se-á e vem-me um nome a cabeça e fico duramente angustiada ! Depois desse nome, desenha-se o meu próprio nome na minha mente : como irei eu sobreviver a esta vida e a este povoado?

 

A morte de uma popular loura de olhos azuis angelicais (Laura Palmer), foi o mote para aquela que até hoje é uma série de culto. Laura aparece morta no rio de uma pequena povoação (Twin Peaks) onde residia.A estória centra-se na investigação do agente do FBI Dale Cooper acerca da morte da jovem. A série tornou-se tão popular que arrecadou 14 nomeações nos Emmys Awards de 1990. Com o diário de Laura Palmer , ficamos a saber que a pequena povoação de Twin Peaks gira em torno de droga, sexo e afins... Laura é viciada em heroina e cocaína, tal como o rapaz que ama e aqueles com quem se envolve. A misteriosa morte de Laura Palmer, a música tema de Angelo Badalamenti, assim como a forma como cada habitante de Twin Peaks estava envolvido com a morte de Laura , ajudaram a segurar o suspense, a tensão e a série a ter uma 1ª temporada aclamada pelo público e crítica até os dias atuais.

 

 

 

No dia dos fieis tropecei em todas as campas!

 

Nauseada e com as pernas trôpegas, coração a palpitar, cabeça a latejar e olhos marejados de lágrimas, só queria fugir daquele lugar. Pior que viver naquele povoado, era ter de ir ao seu cemitério a um quilómetro a pé de distância e deparar-me com pessoas tão jovens que haviam partido deste mundo de um modo tão tétrico e macabro: enforcamento! A uma dada altura, tropecei na campa de um homem assassinado, cujo julgamento vou assistir no final do mês como acompanhante da esposa de quem o assassinou. A reação foi instintiva. Quatro passos para trás, lívida e apavorada, não fosse o defunto agarrar-me nos pés e engolir-me para dentro do seu caixão.

 

Ainda não vira a sua foto, nem quis ver…

 

Instintivamente fugi. O choque foi imediato. Encharquei a cara com água fresca. Só me apetecia vomitar. Regressei, meia a cambalear a campa que fora lá visitar e deparei-me com alguém cujo rosto estava escondido por um capuz. Sabia que ele estava de ressaca. O seu semblante pesado, fechado, olhos encovados e olheiras arroxeadas a adornar a face denunciavam a ressaca e a falta de heroína no seu organismo.

 

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Começou a chorar assim que se deparou com a campa da sua mãe, falecida há um mês, e a campa do amigo enforcado… abandonei o cemitério nauseada a implorar por Leça da Palmeira. Cá fora, coloquei a cabeça entre os joelhos, ainda tinha de percorrer um quilómetro até chegar ao monte onde resido. Fui acompanhada pelo rapaz do capuz e os seus familiares. Ele estava triste. Oscilante nos humores. Irritadiço. Desejava apanhar o próximo bus para ir à cidade. Subitamente, lembramo-nos que era feriado e que tudo era escasso (os transportes, acima de tudo) … questionei-me se iria à cidade buscar heroína. Era o mais certo! Aprendi a conhecer de cor e salteado as horas que consumia e o que tomava para substituir a abstinência fatal da droga no organismo.

 

Nunca sabia quando estava sob o efeito da buprenorfina ou da heroína…

 

Mas também aprendi a conhecer a sua rotina de jogos de consumo e abstinência.

 

Por vezes, olhava-o intensamente olhos nos olhos só para tentar tirar alguma ilação daquele olhar que me queimava, a dadas alturas, e, noutras, implorava perdão e mendigava desculpas… No caminho para casa quis certificar-me que ainda conservava no seu pulso, agora completamente emagrecido, a pulseira que lhe trouxera do santuário de Fátima, benzida, abençoada e re-benzida mil vezes entre preces minhas, rosários e aves-marias.

 

Desde que a colocara no pulso nunca a tirara, como amuleto de proteção!

 

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Fui criada em Leça da Palmeira…

 

Nascida no Porto, mas Leceira de gema.

 

Em Leça, todos sabíamos, já desde tenra idade que objetivos alcançar na vida; todos menos eu, corrijo!

 

Viver entre suicídios, assassinatos, heroína, cocaína, venda de droga ostensiva, trafico & afins é algo que a nossa mente aprende a apreender como algo tão comumente natural/ tão pouco contranatura que até nos fica o cheiro entranhado no cabelo, e o vicio daqueles, com quem convivemos, tatuado na pele, ao ponto, de incorrermos no risco de nos envolvermos demasiado porque as emoções não se controlam e o nosso pobre coração não sabe distinguir pó branco de pó castanho, tampouco saboreá-lo, tudo o que o nosso coração sabe fazer é pulsar, bombear sangue e sentir (angústia, aperto, preocupação, ansiedade, euforia, disforia e até saudades) !

 

Não sou CEO de uma empresa, advogada, arquiteta, médica, enfermeira, professora ou o que quer que seja.

 

Nem sei bem ao que vim.

 

Onde estou. O que faço.

 

Mas com 38 anos de idade, finalmente, compreendi que, muitas das vezes, se consome para se entrar no mundo alienado do “outro”, para se estar mais próximo dele, para ser seu semelhante e falar a sua linguagem, sim, porque uma pessoa sóbria e um viciado não falam a mesma linguagem, a não ser a corporal. Intelectualmente, vivem em mundos antagónicos, distintos e difíceis de se compatibilizar…

 

Quando calhei nesta povoação com cerca de 1000 habitantes onde a Escolaridade mínima era o 9º Ano de Escolaridade e trabalhar como Caixa de Supermercado ou na Fábrica mais próxima na linha de montagem já era um emprego de gabarito e ser Operadora de Telemarketing o sonho Americano, estranhei, ÓBVIO!

 

Foi desconcertante!

 

Errático!

 

Pesado!

 

Assustador…

 

Que saudades de casa!