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FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

FIFTY SHADES OF VANESSA PAQUETE

CHEGUEI AOS 38 ANOS SEM FILHOS, SEM TER TIDO UMA RELAÇÃO ESTÁVEL/DURADORA E SEM CRIAR UMA FAMILIA...

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Cheguei aos 38 anos sem filhos, sem ter tido uma relação estável/duradora e sem criar uma família.


Poder-se-ia dizer que me dediquei a minha vida profissional, mas tal, também não é o caso.


Mudei abruptamente a minha existência aos 33 anos de idade; abdiquei da minha liberdade, da minha profissão & emprego porque – ironicamente – conseguira atingir uma independência já bastante bem cimentada (com muito suor & esforço em cinco anos de vivência a solo), mas, padecia do mal da solidão.


Sempre fui uma pessoa que rapidamente se apercebeu que tinha uma personalidade forte, que em circunstâncias de perigo extremo arriscava a atirar-se no abismo…

 

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Não existia prisão que me retivesse. Namorado que me conseguisse quebrar por completo. Familiares que me magoassem. Ao longo dos anos havia conseguido forjar muito bem uma redoma em torno de mim, um sitio tão bem protegido que nem o mais astuto cavaleiro conseguiria entrar.


Sim, é verdade, sofri, como todas as outras mulheres, quando as relações não davam certo; ficava agoniada, padecia da ressaca das saudades, chorava, descabelava-me… perdi amizades ao longo dos anos que a vida foi separando. Aprendi que um homem viver sozinho era comummente aceitável, mas uma mulher partilhar um apartamento ou pagar o seu quarto alugado – ainda era – pasmem-se, quase um escândalo e sinónimo de vida errante.

 

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Mais que tudo, eu era uma apaixonada pela minha liberdade e pela “dita indiferença “de não ter de prestar contas a ninguém ou dar justificações a quem quer que fosse. Havia criado, já desde a adolescência, um gigante fosso entre mim e os meus parentes que – na realidade – eram tão escassos que poderíamos resumi-los ao meu pai, com quem nunca tive intimidade ou uma relação afetiva.


Os meus avôs criaram-me, mas acabamos por ser afastados, e a minha própria avó tomou a decisão, quando eu tinha quinze anos, de ir viver para uma outra cidade. Reduzida a uma madrasta que me detestava, as suas filhas, a dois meios irmãos e a um pai distante & invisível, aprendi a assimilar tudo sozinha. A cometer os erros sozinha. A tomar decisões sozinha. É-me muito difícil de explicar, mas era quase como um animal que detinha um instinto de sobrevivência muito aguçado.

 

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Os meus olhos eram como os olhos de um lince; viam para além da alma e das aparências.


O meu toque era como o de um animal esfomeado (ainda hoje o é), mas, em simultâneo, também detinha um toque macio, quente, visceral, um daqueles toques que deseja cuidar e reter.


O meu despreendimento ajudou-me a passar por fases muito desagradáveis na minha vida. Sem esse tal despreendimento jamais teria conseguido enfrentar a solidão, jamais teria conseguido sair de casa sem olhar para trás, jamais teria conseguido fazer escolhas, acarretar as suas consequências, chora-las, lamenta-las, etecetera.


O que talvez explique que seja – naturalmente – uma mulher de 38 anos muito diferente das restantes.

 

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Uma mulher de 38 anos…


Todo a gente espera muito de uma mulher de 38 anos.


Que ela seja forte, determinada, bem resolvida consigo própria. Deve estar em ótima forma, ser boa mãe e uma profissional bem-sucedida. Uma mulher de 38 anos deve ficar deslumbrante de batom vermelho caber num vestido de cetim colado ao corpo. E se ela não for nada disso, então será apenas uma solteirona mal-amada, frustrada, carrancuda e a cuspir lavas de fogo ante os outros feita um dragão enclausurado.


A sociedade ama um homem de 38 anos; casado ou solteiro é um homem fascinante. Uma mulher de 38 anos já deve ter a sua sina cumprida: mãe de um ou dois rebentos, casada ou divorciada, depende, pode ser uma deusa ou uma diaba, contanto que possua a prestação de uma casa que fá-la-á sofrer no final do mês, esposa de alguém (de preferência de um homem com lhe assegure a estabilidade e segurança tão almejada pela severa sociedade), ser possuidora de uma carrinha familiar, praticante de fitness, pois a concorrência assim o exige, compradora compulsiva de produtos da Mary Key pois as amigas já lhe apontaram umas rugas bem vincadas e deve ansiar ferverosamente pelas férias natalícias e as estivais, aliás, datas marcadas no calendário desde o inicio do ano… Sem este trâmite a mulher de 38 anos com a sua sina já cumprida não consegue organizar os 365 dias do seu ano.

 

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Eu sou uma mulher de 38 anos diferente.


Aos 33 abdiquei da independência espacial (subentenda-se, apartamento & emprego) mas sempre mantive e privilegiei a psíquica, e que ninguém me acorrente…


Possuo a vida mais imperfeita que existe.


Tão imperfeita ao ponto de o padre da minha paróquia ter tido uma reunião comigo para me nomear a próxima vitima da instituição do casamento e desejar obrigar-me a colocar um filho no mundo.


Tenho ares de diva autoritária. Eu mando. Eu faço. Eu quero. Eu vivo. Nem deusa nem diaba. Mulher. E uma mulher que já não permite que ninguém a chantageie ou lhe dê ordens. Anos de experiência para trás deram-me a sabedoria para saber lidar com as situações. Possuo defeitos e virtudes e que ninguém se atreva a deitar-me abaixo, mas também, não necessito que vangloriem as minhas virtudes. Passo bem sem as aparências e a bajulice.

 

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O medo da solidão fez abdicar-me da minha independência e mudar de cidade onde acabaria por viver outras experiências. Creio que todas me foram uteis. Continuei a ter vivências penosas e sofríveis, a padecer da síndroma da falta da independência.


É certo que estou longíssima de ser feliz ou encontrar a felicidade, tampouco sei se chegarei aos 39, por isso, já jogo todas as minhas cartas na mesa livremente.


Eu mando. Eu faço. Eu quero.


Um dia, contar-vos-ei o presente que ofereci a mim própria com 38 anos de idade, e, não, não foi um vibrador ou uma viagem louca pela europa ou a Riviera Maia.


Se conseguir chegar aos 39 anos, contar-vos-ei!

 

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Texto & Crítica: Vanessa Paquete 2017  ©

Fotos: Filipe Perinas ©
Flyers: Vanessa Paquete

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